Cultura
Artista rondoniense transforma elementos da Amazônia em reflexão ambiental
Da Redação* | Fotos: Divulgação

O artista Jorge Feitosa, nascido em Porto Velho (RO) e radicado em São Paulo, apresenta na Europa uma investigação artística que integra elementos da Amazônia para abordar a relação entre corpo, território e memória ancestral. Sua exposição individual em Paris, intitulada “Viagem: Matéria, Rito e Memória Ancestral”, reuniu 22 obras produzidas entre 2012 e 2025, e expôs uma poética que utiliza argila do Rio Madeira, ossos de peixes amazônicos e outras matérias-primas regionais como símbolos de resistência cultural e ambiental.
Feitosa inverteu o olhar histórico dos exploradores europeus ao confrontar o público francês com a presença física e espiritual da Amazônia, mostrando que é a Europa que passa a ser impactada pelo território brasileiro. A argila do Rio Madeira, recolhida em sua terra natal, incorpora camadas políticas e afetivas, evocando as feridas causadas por hidrelétricas e garimpo ilegal na região.
Destaca-se na produção do artista a série Kintsugi (2024), que aplica folhas de ouro sobre fragmentos de ossos de peixes amazônicos, remetendo à técnica japonesa que valoriza as cicatrizes como parte da história. A série representa a memória do garimpo na década de 1980 e propõe uma transmutação simbólica do sofrimento, conferindo dignidade e novo significado a elementos que antes simbolizavam exploração e violência.
Natural de Porto Velho, Feitosa imergiu no contraste entre a floresta amazônica e a metrópole paulista, experiência que permeia sua obra ao articular vegetalidade e urbanidade. Seu percurso artístico inicial decorreu de uma formação em fotografia pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, que fundamentou seu olhar sensível às dimensões da luz, forma e composição em diversas linguagens, incluindo pintura, cerâmica e performance.
O artista já participou de exposições internacionais relevantes, como a individual NAVEGAR ES PRECISO (2016) em Havana, e mostras coletivas na Itália e no Brasil. Atualmente, tem seu trabalho incorporado nos acervos do Museu Universitário de Arte (MUnA) e do Museu de Arte do Rio (MAR). Em seu atual ciclo de pesquisa, Feitosa retorna à pintura para promover um olhar contemporâneo sobre a flora brasileira, rompendo com a tradição colonialista dos naturalistas europeus do século XVII.
Dentre suas séries mais expressivas, destacam-se:
– Mapa dos Ventos (2015): fotografia macro de troncos que simboliza os rios voadores da Amazônia, abordando o ciclo hidrológico essencial à sobrevivência.
– Sobre Deslocamentos e Natureza (2015): imagens invertidas das margens do Lago Michigan que questionam a intervenção humana na natureza.
– Paisagens e Miragens (2016): recomposições visuais que desconstroem a percepção tradicional da paisagem, propondo uma nova relação sensível com o ambiente.
– Disparo (2021): esculturas em argila que representam a violência sofrida pelos territórios indígenas, através do registro da força exercida no material.
– Topografia das Correntes (2023): peças em cerâmica que expressam o encontro dos rios Negro e Solimões, simbolizando a tensão ambiental atual.
– Dente de Gado (2024): esculturas em madeira folheada a ouro que criticam a exploração predatória da floresta representada pelo agronegócio e garimpo.
Jorge Feitosa utiliza sua produção para dar voz à memória ambiental amazônica e para questionar impactos socioambientais que atravessam o território, oferecendo uma reflexão artística complexa sobre identidade, pertencimento e resistência.
Com informações da assessoria*
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