Cultura
Coletivo Rudi leva 5ª edição da Skamosa para comunidade na zona de norte de Manaus
Da Redação* | Foto: Juliana Pesqueira / Coletivo Rudi

Em mais uma celebração da herança musical afro-caribenha na Amazônia, o Coletivo Rudi leva a quinta edição da ocupação cultural Skamosa para as ruas da comunidade do Nepal, zona Norte de Manaus, no dia 18 de julho, sábado. Gratuito e aberto ao público, o evento une cultura reggae sound system, graffiti e batalha de rima como forma de ocupar os espaços públicos por meio da arte, promovendo debates sobre justiça social e racial.
O público poderá vivenciar um baile de reggae a partir de experiências sonoras em formato de vinil e digital. A Skamosa destaca a diversidade da música afro-caribenha, transitando pelos gêneros reggae roots, lovers rock, raggamuffin, ska, dub, rocksteady, dancehall e melô.
A programação do evento contará com apresentações dos DJ’s Zulu Portuga, Zulu MC Fino, Nico, Ufo Roots, Luh Roots (Maranhão) e Criolla, além das performances da toaster e mestre de cerimônia Enma Fuzinatto e da cantora e compositora Natty dos Anjos.
O evento recria a atmosfera das festas de rua e da cultura reggae sound system com a amplificação de uma radiola completa, símbolo da tradição reggae maranhense presente em Manaus. A atividade também terá uma batalha de rima com o tema “Memórias negras da Amazônia”, premiando MC’s como incentivo para reflexões e rimas sobre o legado de pessoas negras e afrodescendentes que lutaram pelas periferias, pelas artes e pelo direito à moradia no Amazonas.
O projeto foi um dos contemplados pelo Edital Cultura nos Territórios 2026, do Fundo Marielle Franco. A convocatória nacional reconheceu iniciativas de periferias, favelas e comunidades brasileiras que atuam na defesa da democracia, na luta por justiça e na preservação da memória.
Homenagem a Helena Walcott e Hahnemann Bacelar
Para trabalhar a arte como ferramenta de conscientização sobre a memória e o legado de pessoas negras do Amazonas, a ocupação convidou os grafiteiros Riq e Soft para produzir murais em homenagem a duas personalidades da história do Estado: Helena Augusta Walcott e Hahnemann Bacelar, reconhecidos por suas contribuições para a formação cultural e social da cidade de Manaus.
Helena Augusta Walcott foi uma freira e importante liderança do movimento social por moradia popular em Manaus. Nascida em Rondônia, mulher negra e filha de barbadianos, viveu por décadas no Amazonas, lugar onde ficou conhecida como “mãe dos sem-teto”. Foi responsável pela organização de ocupações urbanas e pela luta por moradia que beneficiou milhares de famílias das periferias de Manaus entre as décadas de 1970 e 1990.
Já Hahnemann Bacelar foi um artista visual e homem negro nascido em Manaus, cuja obra retratou a cultura regional e o cotidiano ribeirinho por meio de uma estética inovadora e expressionista para a época, nos anos 1960. Pinturas como “Cafuné”, “As Lavadeiras” e “Mulheres” estão entre suas obras mais conhecidas, mas permanecem até hoje pouco acessadas pela juventude da cidade. Sua trajetória, invisibilizada pelo racismo, foi tragicamente interrompida por sua morte precoce aos 22 anos de idade, em 1971.
O intuito do mural de graffiti é deixar na periferia uma marca permanente da memória dessas figuras que contribuíram para transformações nos campos sociais e artísticos do estado do Amazonas, ocupando o espaço público e aproximando a sonoridade jamaicana – marcada por mensagens de paz, amor e justiça racial e social – das vivências urbanas da Amazônia.
Para Nico Ambrosio, fundadora e coordenadora do Coletivo Rudi, a quinta edição da Skamosa reafirma o compromisso do coletivo em promover atividades culturais que fortalecem a circulação de artistas amazonenses e ampliam o acesso da população à cultura. Segundo Ambrosio, o projeto vai além da música ao utilizar a cultura sound system como ferramenta para estimular o encontro comunitário nos espaços públicos.
“Esse projeto nasceu com a proposta de ocupar a cidade a partir da cultura sound system, que tem o poder de reunir as pessoas e transformar os espaços públicos em lugares de convivência ao som do reggae. A cada edição buscamos construir uma programação que dialogue com temas urgentes do nosso tempo, como crise climática e justiça social. Desta vez, além das programações musicais, homenageamos Helena e Hahnemann para reafirmar a importância de preservar e difundir essas memórias de luta”, afirma.

Cultura sound system em Manaus
Produzida pelo Coletivo Rudi, a ocupação cultural Skamosa é realizada em parques, praças, ruas e outros espaços públicos de Manaus de forma regular pelo segundo ano consecutivo, com a missão de difundir gratuitamente e de forma acessível a cultura sound system, além de fortalecer redes culturais independentes entre artistas e produtores manauaras.
Nesta edição, realizada em parceria com o coletivo Movimento Nepal Vive (MVN), o evento reforça a conexão histórica entre Amazônia e Caribe, marcada pela presença e resistência de populações negras e indígenas nas periferias da região amazônica.
Segundo dados do Censo 2022, Manaus possui 236 favelas e comunidades urbanas, concentrando mais de 1,1 milhão de moradores, cerca de 55% da população da cidade. A maioria dessas populações são formadas por pessoas negras, pardas e indígenas.
Além da programação artística, a ocupação celebrará os três anos de atuação do Movimento Nepal Vive, iniciativa que fortalece ações de mobilização, esporte, cultura e cidadania na comunidade do Nepal. Como parte da comemoração, o evento terá início com uma programação especial voltada às crianças e suas famílias, com oficina de pintura conduzida pela artista visual Bell Apoena, e torneio de futebol e gincana comunitária com Dighetto, fundador do MNV.
“É super importante para a gente conseguir levar todos esses elementos para o Nova Cidade, principalmente para a comunidade Nepal. A cultura sound system e a cultura reggae precisam voltar a existir nesses espaços…ocupar o centro é importante, mas ocupar a periferia é mais ainda. Nesta edição, nossa missão é levar a história de Helena e Hahnemann para quem ainda não conhece, e conectar à essência do Coletivo Rudi, em clima de festa”, disse Vitor Maia, produtor e fundador do Coletivo Rudi.

Sobre o Coletivo Rudi
O Rudi é um coletivo manauara de cultura reggae e sound system fundado em 2024 com o objetivo de difundir e celebrar a musicalidade de raízes jamaicanas, com foco nos estilos reggae roots, rocksteady, ska, dancehall e dub. Formado pela jornalista, DJ, produtora cultural e fotógrafa Nico Ambrosio e pelo grafiteiro e produtor cultural Vitor Maia, o coletivo cria pontes entre territórios e sons a partir da tradição do reggae, que chegou por mares e rios às radiolas e aparelhagens da Amazônia nas décadas de 1970 e 1980.
Desde sua fundação, o Rudi realiza ocupações culturais gratuitas e regulares em praças, parques, ruas e outros espaços públicos de Manaus, reunindo DJs, seletores, grafiteiros, MCs, toasters e artistas locais em uma programação que integra música, batalhas de rima, graffiti ao vivo e outras expressões da cultura urbana. Com atuação independente, o coletivo busca fortalecer a cultura sound system na Amazônia urbana ao promover encontros culturais, reafirmando seu compromisso com o direito à cidade e a democratização do acesso à cultura.
Sobre o Movimento Nepal Vive
O Movimento Nepal Vive (MVN) é uma iniciativa independente, criada no coração da zona Norte de Manaus, com o propósito de transformar realidades por meio da arte, da cultura, da educação popular e do protagonismo infantil. O trabalho do coletivo nasce da comunidade para a comunidade, promovendo acesso à cultura como direito fundamental e fortalecendo vínculos sociais através de ações que valorizam a identidade local, a criatividade e a participação ativa da juventude.
Com informações da assessoria
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