Cultura
Sateré-Mawé: tradição, cultivo e preservação do guaraná em Maués
Por Sophia Guimarães | Fotos: Divulgação

Entre os rios Andirá e Marau, o povo Sateré-Mawé mantém vivo um dos mais antigos e simbólicos saberes da floresta: a domesticação e o cultivo tradicional do guaraná. Reconhecidos como os criadores originários da planta, os Sateré-Mawé não apenas preservam uma técnica agrícola ancestral, mas sustentam uma cosmovisão em que natureza, espiritualidade e organização social formam um todo indissociável.
A origem do guaraná, segundo a tradição oral Sateré-Mawé, está ligada a um mito fundador que atravessa gerações. A narrativa conta que a planta nasceu dos olhos de uma criança, simbolizando vigilância, força vital e conhecimento. Essa história não é apenas lenda: ela orienta práticas educativas, rituais e valores coletivos, reforçando a ideia de que o guaraná é um ente vivo, dotado de significado espiritual e social. Contar e recontar o mito é, para o povo, uma forma de educar, preservar a memória e garantir continuidade cultural.
O território tradicional Sateré-Mawé abrange áreas da Terra Indígena Andirá-Marau, com forte presença no município de Maués, conhecido nacionalmente como a Terra do Guaraná. Nesse espaço, o cultivo ocorre de maneira sustentável, sem uso de agrotóxicos, respeitando os ciclos naturais da floresta e os tempos próprios da planta. O manejo inclui a seleção das sementes, o plantio consorciado, a colheita manual, a secagem artesanal e a transformação em bastões — processo que exige conhecimento técnico refinado e experiência transmitida de geração em geração.
Para os Sateré-Mawé, o guaraná vai muito além de um produto agrícola. Ele ocupa lugar central na vida comunitária: é consumido no cotidiano, utilizado em rituais, reuniões coletivas e práticas medicinais tradicionais. A bebida feita a partir do guaraná ralado é associada à energia, à concentração, à saúde e ao equilíbrio espiritual, sendo parte fundamental da identidade do povo.
Nas últimas décadas, entretanto, a valorização comercial do guaraná trouxe novos desafios. Embora o produto tenha ganhado projeção nacional e internacional, nem sempre o reconhecimento econômico veio acompanhado do respeito aos direitos culturais e territoriais de seus criadores originários. A apropriação do saber tradicional, a padronização industrial e a desconexão entre mercado e cultura ameaçam invisibilizar os Sateré-Mawé e reduzir o guaraná a uma simples mercadoria.
Em resposta, o povo tem fortalecido estratégias próprias de resistência e autonomia. Associações comunitárias, projetos de certificação de origem, educação escolar indígena e parcerias que respeitam o protagonismo local são algumas das iniciativas que buscam proteger o conhecimento ancestral e garantir que os benefícios econômicos retornem às comunidades. A defesa do território e da cultura também passa pela transmissão dos saberes aos jovens, assegurando que as técnicas tradicionais e a língua permaneçam vivas.
*Do Projeto Jovens Comunicadores de Maués
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