Tecnologia
Talent Lab, iniciativa da Bemol, é destaque na plataforma nacional ‘Ybyá – Rios do Conhecimento’
Texto e foto: Sergio Adeodato

Formação em Tecnologia da Informação e Comunicação capacita para o trabalho em empresas globais sem sair do interior da Amazônia
Prefeitura, igreja, delegacia, hospital e banco são pontos tradicionais de referência nas pequenas cidades brasileiras. No Amazonas, há um outro ícone de destaque no mapa urbano: a loja Bemol, maior rede varejista da região, onde consumidores realizam desejos do móvel, celular ou eletrodoméstico novo. Em Itacoatiara (AM), a 270 Km de Manaus, uma novidade chama atenção: no segundo andar do estabelecimento comercial, próximo ao showroom de camas, cadeiras e guarda-roupas, se localiza a sala do Talent Lab. A iniciativa capacita jovens em Tecnologia da Informação (TI) para o trabalho na empresa ou fora dela – inclusive remotamente, em bigtechs e corporações de todo o mundo, sem sair da floresta.
“Preparamos para o mercado nacional e global; e após a formação os participantes são multiplicadores para a chegada de novos talentos”, informa Camila Silva, coordenadora do time de pessoas da Bemol. O programa inclui desde linguagem de programação básica até engenharia de software e sistemas computacionais mais avançados, além de habilidades para relações humanas no trabalho.
Em Itacoatiara, havia evasão escolar antes da conclusão dos cursos universitários da área tecnológica por jovens que antecipavam a busca de emprego em Manaus, o que motivou a empresa abrir oportunidades de trabalho no setor, sem precisar sair da cidade. Após o sucesso da iniciativa-piloto de seis meses, com projetos de TI voltados à redução de perdas na Bemol Farma, segmento de negócios do grupo varejista, novas turmas foram iniciadas para formação em áreas como desenvolvimento de software e ciência de dados.
Nos diferentes ciclos, as atividades abrangeram 32 participantes, incluindo os seis do atual grupo, iniciado em setembro. “Buscamos maior participação feminina, invertendo o perfil majoritariamente masculino na área de tecnologia nas universidades”, enfatiza Rafaelle Nascimento, gestora de sustentabilidade da Bemol.

Persistência e abertura para o novo
Jovens de vários municípios são atraídos para a formação de nível técnico ou superior em Itacoatiara, devido à presença de estruturas acadêmicas, como o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O Talent Lab fortalece esse ambiente de produção de conhecimento que funciona como um hub regional de talentos vindos dos interiores da floresta com sede de oportunidades. Após a formação, alguns ficam na cidade; outros vão para a capital ou voltam para a terra natal, e de lá se conectam com o mercado.
“O diferencial da região é a determinação nas dificuldades, a resiliência e a vontade de buscar algo a mais, com disposição para o novo”, enfatiza Afrânio Viana, 24 anos, formado em Sistemas de Informação. Após sete meses no Talent Lab foi contratado pela Bemol como trainee em análise de dados no marketing. “Sem a oportunidade, iria para Manaus buscar emprego no Polo Industrial”, pondera.
Ele reforça que o perfil amazônico de persistência combina com a complexidade das demandas da TI: “O aprendizado é constante com mudanças frequentes, e na Amazônia acostumados a lidar com questões e desafios mais demorados para chegar a bons resultados”.
No trabalho de iniciação científica durante a graduação em Itacoatiara, Viana aplicou tecnologias digitais para analisar imagens de satélite e prever impactos do desmatamento na escala local. No futuro o plano é usar o aprendizado para projetar riscos de doenças a partir de dados do clima e indicadores demográficos, importantes na prevenção.
“Quando aparece uma oportunidade, precisamos agarrar”
Inovações na saúde estão também no radar de Kayth Pinheiro, 27 anos, engenheira de inteligência artificial (IA) na Bemol e aluna da Ufam, vinda de Parintins (AM) – terra da tradicional festa do boi-bumbá, que hoje une tecnologia e criatividade. “Busquei um caminho de independência financeira para apoio à família, com emprego certo e possibilidade de ampliar renda em trabalho remoto”, conta Pinheiro, sem planos de sair do interior amazônico. “Diante das limitações históricas da região, quando aparece uma oportunidade precisamos agarrar”.
Filha de produtores rurais, a engenheira se diz “privilegiada por ser amazônida”, assim como colegas do Talent Lab que mudam a perspectiva do “complexo de vira-lata”, de sentir-se inferiores em relação ao mundo desenvolvido. Bem direcionada, a inovação digital, chave ao desenvolvimento de uma nova economia na Amazônia, tem poderes de cobrir feridas do colonialismo, fortalecendo identidades locais. O rio Amazonas é uma das mais expressivas, que “carrego com orgulho, em especial nas inspirações ao pôr do sol, na orla da cidade”.
À frente do rio, a avenida principal exibe um bem-cuidado corredor de oitis – árvore da Mata Atlântica que ocorre no Amazonas, em áreas de grande volume de chuvas. Lá se localiza a loja da Bemol e o espaço de trabalho com vinte computadores, onde o manauara Victor Barbosa, 37 anos, buscou uma virada de chave na vida.
Os oitis de Itacoatiara
Ele já trabalhou como mergulhador profissional para inspeções no porto de Manaus, ensinou inglês para crianças e vendeu bebidas em cidades ribeirinhas ao longo de todo o percurso do rio Amazonas. Do casamento, vieram dois filhos e então começou a estudar Engenharia de Software na Ufam, com idas a São Paulo para sondar trabalhos. Mas a oportunidade surgiu no meio da floresta, na Bemol – lá, Barbosa ingressou na formação em Ciência de Dados e foi contratado como analista de crédito. “Vejo como alavanca primordial para acesso a um mercado de trabalho muito concorrido. Um impulso ao crescimento pessoal e profissional em momento difícil na vida”, revela.
A expectativa é um dia empreender o próprio negócio com desenvolvimento de software – inclusive para demandas do exterior. “Programadores brasileiros são bem-vistos lá fora; será uma chance de maior visibilidade para a Amazônia, uma forma de retornar benefícios à sociedade”, observa. Em resumo, há muito potencial para evoluir, só faltam oportunidades.
Para ler o material completo do jornalista Sergio Adeodato sobre demais iniciativas em Itacoatiara, você acessa neste link
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