Empreendedorismo
Julia Guerreiro transforma o crochê em fonte de renda em Presidente Figueiredo
Por: Sophia Guimarães | Fotos: Arquivo Pessoal

Em Presidente Figueiredo, a JG Crochê vem conquistando espaço não apenas pela delicadeza e qualidade de suas peças, mas principalmente pela história que sustenta cada ponto. À frente do negócio está Julia de Moraes Guerreiro, de 20 anos, uma jovem empreendedora que transformou dor em força, talento em profissão e artesanato em propósito de vida.
Nascida em Campo Grande (MS), Julia aprendeu a crochetar entre os 7 e os 8 anos com a avó paterna, sua grande referência afetiva e profissional. O artesanato sempre esteve presente na família Moraes há décadas, muitas vezes como fonte de renda. Ainda criança, ela vendia chaveiros e ursinhos artesanais na escola. “Eu me sentia dona de mim e muito rica”, relembra, contando que, com dois reais, comprava uma sacola cheia de doces. Ali nascia não apenas uma habilidade manual, mas o espírito empreendedor.
A vida, no entanto, exigiu maturidade precoce. Trabalhando desde muito jovem, ajudando no sustento em sítios e enfrentando uma infância difícil e uma estrutura familiar disfuncional, Julia aprendeu cedo a correr atrás do que precisava.
Saiu de Campo Grande por motivos dolorosos, foi adotada e viveu sete anos em Roraima, onde também morou em sítio e trabalhou na terra. As dificuldades trouxeram dores, mas também clareza, força e uma virada de chave que a transformou na mulher resiliente e determinada que é hoje.
Chegar a Presidente Figueiredo não estava nos planos. Se apaixonou pela cidade, pela cultura e pelas novas possibilidades. Foi ali que começou a enxergar novos sonhos: terminar a faculdade, empreender e, futuramente, estudar moda e artesanato — áreas que sempre amou, mas que antes não se sentia livre para escolher.
A criação da JG Crochê aconteceu três dias após pedir demissão de um trabalho exaustivo, onde saía às 4h da manhã e retornava às 21h, ainda precisando estudar para a faculdade.
Conversando com o marido, mostrou os amigurumis que havia feito quando morava no 26 de Balbina. Ele, videomaker, acreditou imediatamente no potencial dela. Sugeriu investir, criou a loja online, fez fotos, vídeos, o slogan e apostou financeiramente no sonho da esposa. A primeira peça postada foi um chaveiro do Stitch. Antes das 22h daquele mesmo dia, já havia três pedidos. “Foi uma alegria imensurável, uma paz inexplicável”, conta.
Mais do que investimento financeiro, houve incentivo emocional. O marido a fez acreditar em si mesma, enxergar suas capacidades e recalcular a rota da própria vida. Empreender em casal, segundo ela, fortalece: dividir o fardo torna o peso mais leve. Ele a impulsionou quando o medo tirava seu sono — medo de não dar certo, de não pagar as contas, de ouvir que seus pais estavam certos ao duvidar dela. Mas os resultados vieram, e com eles a certeza: ela é capaz.
Apesar do crescimento da marca e dos clientes fiéis que conquistou, Julia ainda enfrenta o preconceito comum contra o artesanato. Muitos veem como hobby, não como profissão. Julgam o preço, desvalorizam o trabalho, dizem: “até eu faço igualzinho.” Mas ela reforça: uma peça em crochê é um investimento. Feita à mão, com carinho e dedicação, possui longa durabilidade quando bem cuidada. É tradição cultural, é moda, é tendência e carrega história.
Em Presidente Figueiredo, embora o crochê não seja culturalmente tão forte quanto em Mato Grosso do Sul, ela percebe um interesse crescente. A volta das peças artesanais à moda e às tendências da internet tem despertado o olhar da população figueirense. E Julia quer ir além das vendas: seu plano é expandir a JG Crochê para outros estados — algo que já começa a acontecer com pedidos de fora do Amazonas — e também criar projetos na própria cidade para capacitar outras mulheres, oferecendo uma fonte de renda extra e a possibilidade de transformação de vida.
Ela também sonha em desenvolver projetos que unam o crochê à rica cultura de Presidente Figueiredo, mesclando elementos regionais às peças artesanais e fortalecendo a identidade local. Para ela, cada encomenda é tratada de forma única. Não é apenas uma peça. É a realização de um sonho. Ao receber um pedido, ela analisa o contexto, o motivo, quem será presenteado. Transforma referência em sentimento personificado em crochê. Seu diferencial é entregar emoção, não apenas produto.
O artesanato lhe devolveu saúde, paz, estabilidade e tempo. Trabalhando por conta própria, pode organizar prazos, estudar ouvindo audiobooks enquanto produz e descansar quando necessário. Hoje paga seu aluguel, sente a segurança de ter um lar e carrega a certeza de que consegue — sozinha ou ao lado de quem acredita nela.
A avó continua sendo símbolo de inspiração. Foi quem ensinou os pontos, mas também a empreender. Julia pretende manter viva essa tradição na família, ensinando aos filhos quando os tiver, perpetuando o legado artesanal da família Moraes.
*Do Projeto Jovens Comunicadores de Presidente Figueiredo
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