História
Maués: história, cultura e tradição na Terra do Guaraná

Por: Sophia Guimarães / Foto: Prefeitura de Presidente Figueiredo

Hoje conhecida como “Terra das Cachoeiras”, Presidente Figueiredo é um dos municípios do Amazonas conhecidos por suas quedas d’água, cavernas, rios e áreas de floresta. Mas a história do território é anterior à criação do município, em 1981.
A área que atualmente pertence a Presidente Figueiredo fazia parte de outros municípios e era formada por extensas áreas de floresta, rios, comunidades e territórios tradicionalmente ocupados por povos indígenas. O território municipal foi formado a partir do desmembramento de terras de Itapiranga, Novo Airão, Silves e Urucará.
Muito antes da abertura da BR-174 e da formação das comunidades conhecidas atualmente, a circulação pela região estava relacionada aos rios e à floresta. Estudos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) sobre a Reserva Biológica do Uatumã registram a presença histórica dos Waimiri-Atroari e de outros grupos indígenas na região.
O documento também destaca que terraços fluviais, planaltos, grutas e abrigos existentes na área ofereciam condições favoráveis à ocupação humana no passado. A história da região, portanto, não começa com a chegada dos primeiros moradores não indígenas. Antes deles, a floresta já era território de povos que conheciam os rios, caminhos e recursos naturais e mantinham formas próprias de organização e sobrevivência.
A transformação da região ganhou velocidade principalmente a partir do século 20. Um dos acontecimentos decisivos foi a abertura da BR-174, estrada que passou a ligar Manaus a Roraima.
Segundo o plano de manejo da Reserva Biológica do Uatumã, a rodovia foi concluída em 1977 e sua abertura provocou a ocupação de suas margens por pequenos agricultores. A estrada mudou a relação da região com Manaus. Com a rodovia, tornou-se possível transportar pessoas, produtos e equipamentos com mais facilidade, estimulando a chegada de famílias interessadas em terras para agricultura e criação de animais.
Na década de 1970, o Incra criou o Projeto Fundiário Manaus, que tinha entre seus objetivos regularizar ocupações existentes. Na região estavam imóveis destinados ao assentamento rural, entre eles Uatumã, Pitinga e Balbina.
Enquanto a BR-174 estimulava a ocupação ao longo da estrada, outro empreendimento começava a transformar a região: a mineração. Na área do rio Pitinga, estudos geológicos começaram em 1970. A exploração de cassiterita teve início por volta de 1980 e 1981, atraindo trabalhadores e contribuindo para a instalação de infraestrutura e serviços na região. A atividade mineradora ajudou a consolidar a ocupação de Pitinga, que posteriormente se tornaria um dos principais distritos de Presidente Figueiredo.
Quase simultaneamente, outra grande obra mudaria a paisagem local: a construção da Usina Hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã. A implantação da hidrelétrica provocou a formação de um núcleo urbano destinado a atender trabalhadores e serviços relacionados ao empreendimento. O distrito de Balbina surgiu nesse contexto e passou a ter infraestrutura própria.
A transformação também teve impacto ambiental e social. O represamento do rio Uatumã provocou o alagamento de uma extensa área e atingiu comunidades que viviam na região. A Prefeitura de Presidente Figueiredo registra que famílias do atual distrito de Balbina tiveram suas terras alagadas pela construção da usina. O lago formado pelo represamento também modificou a dinâmica econômica local. Segundo levantamento do Serviço Geológico do Brasil, a atividade pesqueira ganhou maior importância após o represamento do Uatumã, especialmente a partir do final dos anos 1980. É nesse cenário de mudanças que surge a história política do município.
O território que hoje conhecemos como Presidente Figueiredo pertencia originalmente a municípios vizinhos.
Emancipação
A área foi posteriormente reunida a partir de partes de Novo Airão, Itapiranga, Silves e Urucará. A emancipação ocorreu oficialmente em 10 de dezembro de 1981, por meio da Emenda Constitucional Estadual nº 12. A instalação administrativa ocorreu posteriormente, com a posse do primeiro prefeito e dos vereadores em 1983.
A cidade, portanto, nasceu de um território que já vinha sendo transformado por diferentes processos: ocupação indígena ancestral, migração de famílias, agricultura, abertura de estradas, mineração e grandes obras de infraestrutura.
De acordo com o histórico publicado pela Prefeitura, a população que vivia na região antes da criação do município era formada por pessoas que chegaram principalmente através de Manaus em busca de terras e novas oportunidades. Também havia servidores públicos ligados aos órgãos estaduais de terras e às instituições relacionadas aos povos indígenas.
Vieram pessoas de diferentes partes do Brasil, incluindo Amazonas, Pará e estados das regiões Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa mistura de origens ajudou a formar uma população culturalmente diversa, característica que permanece na identidade do município.
Com a criação de Presidente Figueiredo, começou uma nova etapa: transformar aquele território extenso em uma cidade com estrutura administrativa própria. Segundo o histórico disponibilizado pela Prefeitura, José Maria Castelo Branco foi encarregado inicialmente de abrir ruas, organizar lotes e iniciar a formação da área urbana. Depois, Floriano Maia Viga deu continuidade ao processo.
O pioneiro João Cavalcante Roldão, ligado à agropecuária e ao comércio, possuía parte significativa das terras onde a cidade começou a se desenvolver e participou da formação do núcleo urbano por meio da doação e venda de terrenos. Os primeiros espaços urbanos incluíram a região central e o atual bairro Honório Roldão Posteriormente, a cidade continuou crescendo e incorporando novos bairros.
A BR-174 trouxe novas possibilidades de circulação e ocupação. A mineração de Pitinga criou um importante polo econômico. A Hidrelétrica de Balbina deu origem a outro núcleo urbano e transformou a paisagem do Uatumã. No meio dessas mudanças, nasceu o município que décadas depois passaria a ser conhecido por suas cachoeiras e pelo turismo de natureza.
Hoje, quando se fala em Presidente Figueiredo, é comum pensar primeiro nas cachoeiras e nos atrativos naturais. Mas, antes das placas indicando os locais turísticos e das pousadas recebendo visitantes, a região já tinha seus próprios caminhos, moradores, histórias e formas de vida.
*Com informações do Portal No Ar Presidente Figueiredo.