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Geração à geração: Rosa Sinderval, uma vida dedicada às Pastorinhas

Por Carlos Alexandre |
Fotos: Geise Nunes / Elinaldo Tavares |

“Ano bom festa de reis, pedimos quem pode dar. Um coração generoso, a mim ninguém pode negar”. A canção proferida pela Cigana, personagem das Pastorinhas, ecoa por todo o dia 6 de janeiro, Dia de Santos Reis, nas ruas de Parintins. É o dia que a cidade ganha o colorido especial para comemorar o dia dos reis magos Baltazar, Gaspar e Melchior. Os cordões pastoris saem nas ruas em busca de donativos para a “Queima das Palhinhas”, que ocorre à noite quando o presépio é desmontado e as palhas da cobertura são queimadas. A programação também é uma espécie de confraternização entre brincantes, colaboradores e apoiadores que marca o encerramento do Natal.

A brincadeira em Parintins tem mais de 100 anos e é transmitida de geração à geração. Os cabelos brancos e a pele queimada da mestra da Cultura Popular, Rosimar Sinderval da Silva, ou simplesmente, Rosa Sinderval, 62, são de muita luta para manter viva a tradição que ela herdou dos avós quando morava na comunidade do Aninga, na Pastorinha Filhas de Maria que tem 94 anos de Fundação. Em 1991, quando mudou para o bairro São Francisco, área oeste do município, fundou a Pastorinha Filhas de Maria de São Francisco de Assis. Da avó ela recebeu a missão de manter a Pastorinha viva por 7 anos, segundo os mais idosos que integram a brincadeira, quem não mantivesse essa tradição, teria problemas de saúde na família, o grupo já tem mais de 30 anos.

Em meios as lágrimas, dona Rosa Siderval conta que a relação das pastorinhas vai muito além de uma manifestação cultural ou artística. “Nossas apresentações são baseadas na religiosidade e na fé”, conta ela. Emocionada, ela lembra um dos momentos onde não pretendia colocar a pastorinha para se apresentar. “Meu avô estava entre a vida e a morte. Os médicos disseram que só Deus. Eu fui para o hospital acompanhar meu avô, no meio do caminho, ainda não era asfaltado, era areia chutei algo e quando fui juntar percebi que era uma imagem, um presépio com Jesus, Maria e José e prometi que se ele ficasse bom eu colocaria novamente a pastorinha”, conta ao lembrar que o avô ficou tão bem que após alta saiu caminhando do hospital. Ele viveu por mais sete anos e durante todo o dia 6 de janeiro ela dava a mesa de comida, chamava as crianças e o avô tocava os cantos pastoris.

O sentimento que Rosa Sinderval tem pelas pastorinhas é algo inexplicável. Ela conta que passa o ano inteiro comprando tecido para deixar armazenado para o período de natal. Sua luta para manter viva a tradição da brincadeira também lhe exige muito e ela sofre por isso, mas não desiste. “Existe muita discriminação com as pastorinhas, a falta de atenção com o nosso trabalho. A gente recebe na cara pessoas que falam que não gostam de pastorinha. Quem não gosta de pastorinha, não gosta de Deus, porque a Pastorinhas é toda baseada no nascimento do menino Jesus”, afirma ela.

Dos avós para a mãe, de mãe para filha…

Enquanto existir amor a cultura das pastorinhas vai manter-se firme por um tempo duradouro. Dona Rosa Sinderval tem feito um excelente trabalho para perpetuar a brincadeira nascida na Europa, nessas paragens amazônicas. A matriarca da Pastorinha Filhas de Maria do São Francisco mantém no sangue de seus descendentes o sentimento pelos cordões de canções natalinas.

Todos os seus filhos brincaram na pastorinha Filhas de Maria. Sua primogênita, Mara Sinderval, já assume os trabalhos administrativos e da Associação das Pastorinhas de Parintins. A entidade foi criada para fomentar as pastorinhas a continuarem promovendo seus cordões durante a celebração do Natal. Mara se tornou a porta voz dos grupos filiados da Associação. Ela organiza, reúne, corre atrás de patrocinador e segue os passos da mãe.

Tem uma coisa que Rosa e Mara Sinderval, mãe e filha, já entraram em consenso: é quem vai assumir futuramente a pastorinha Filhas de Maria do São Francisco. A mestra Rosa já entregou para a neta, Victória Fernanda Sinderval Calderaro, a missão de conduzir o cordão. “A minha filha de 6 anos já é a mestra, minha mãe já passou a responsabilidade pra ela. Ela só não responde totalmente porque ainda é uma criança, mas ela e a esperança que nós temos da continuação do projeto”, explica Mara.

“Ela é uma diretoria mirim que é respeitada, uma das jornadas que nós cantamos na abertura do Festival, foi ela quem compôs. Então, nossa história é de geração em geração”, conta na certeza de que o legado da família vai se perpetuar na história cultural de Parintins.

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