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Manicoré: conheça a história da ‘Princesinha do Rio Madeira’ no Amazonas

Da Redação | Foto: Rosangela Santos de Oliveira/Wikimedia Commons

À margem direita do rio Madeira, Manicoré construiu sua história em torno das águas. Muito antes da criação oficial do município, a região já era habitada por diferentes povos indígenas e percorrida por redes de deslocamento, pesca, comércio e coleta de produtos da floresta. Com o avanço da colonização portuguesa, o território passou a ser disputado por expedições interessadas nas chamadas “drogas do sertão”, especialmente o cacau nativo.

Atualmente conhecida como “Princesinha do Rio Madeira”, Manicoré ocupa uma posição estratégica entre Manaus e Porto Velho. O rio, além de determinar o transporte e a localização das comunidades, esteve no centro da economia local durante diferentes períodos, da coleta de produtos florestais ao ciclo da borracha e à agricultura familiar.

A origem do nome também remete à presença indígena. Segundo a Prefeitura de Manicoré, a denominação vem do rio Manicoré e estaria associada ao povo Ancoré. Documentos históricos registram ainda a forma Anicoré para identificar um grupo indígena que viveu na região.

Antes da formação do município

Os registros administrativos sobre a colonização do médio rio Madeira mencionam a passagem da expedição de Pedro Teixeira em 1637. Nas décadas seguintes, coletores e exploradores começaram a avançar pelo rio em busca de cacau e outros produtos da floresta.

Esse processo não ocorreu de forma pacífica. Uma monografia histórica publicada pelo IBGE em 1967 registra a resistência das populações indígenas ao avanço colonial e relata que expedições organizadas no início do século 18 foram responsáveis por ataques violentos contra aldeias da região. Entre elas estaria a campanha comandada por João de Barros e Guerra, em 1716.

Pesquisas acadêmicas produzidas na Universidade Federal do Amazonas também demonstram que a ocupação do rio Madeira não pode ser entendida apenas como uma expansão territorial. Estudos sobre os povos Mura e Parintintin destacam as estratégias indígenas de mobilidade e resistência diante das frentes coloniais e, posteriormente, do avanço dos seringais.

Em 1797, foi fundada a povoação do Crato, criada com o objetivo de apoiar o comércio entre o Pará e as regiões de Mato Grosso e Goiás. Por causa das condições do local, o povoado foi transferido em 1802. Essa ocupação deu origem ao núcleo administrativo que, décadas mais tarde, seria levado para a área da atual cidade de Manicoré.

Da freguesia à vila

A organização administrativa avançou na segunda metade do século 19. Pela Lei Provincial nº 96, de 4 de julho de 1858, foi criada a freguesia de São João Batista do Crato.

Dez anos depois, a Lei Provincial nº 177, de 6 de julho de 1868, transferiu a sede da freguesia para o povoado de Manicoré. A unidade passou então a ser denominada Nossa Senhora das Dores de Manicoré.

O passo decisivo ocorreu com a Lei Provincial nº 362, de 4 de junho de 1877. A norma elevou Manicoré à categoria de vila e criou o município, com território desmembrado de Manaus. A instalação administrativa aconteceu em 15 de maio de 1878, data celebrada oficialmente como aniversário da emancipação política do município.

Ainda em 1878, Manicoré tornou-se sede da Comarca do Rio Madeira, embora sua instalação tenha ocorrido apenas em 12 de dezembro de 1881. A medida demonstra a importância que a localidade já havia adquirido como centro administrativo e comercial da extensa região atravessada pelo Madeira.

Em 4 de maio de 1896, pela Lei Estadual nº 137, a vila foi elevada à categoria de cidade. A transformação ocorreu durante um período de crescimento econômico e populacional impulsionado pelo extrativismo e pela navegação fluvial.

A economia da floresta

Entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, a expansão dos seringais modificou profundamente a vida no rio Madeira. A busca pela borracha atraiu trabalhadores, comerciantes e proprietários, criou novos povoados e ampliou a circulação de embarcações e mercadorias.

Esse crescimento, contudo, também foi marcado por relações desiguais de trabalho e por conflitos com as populações indígenas. Pesquisas da Universidade Federal do Amazonas sobre os seringais do Madeira analisam a atuação dos patrões, os mecanismos de endividamento e as relações de poder que submetiam muitos trabalhadores nos barracões e colocações de seringa.

Manicoré ganhou importância como ponto de circulação da produção extrativista. Uma monografia municipal publicada pelo IBGE em 1967 registra que a borracha e a castanha-do-brasil estavam entre os principais produtos da economia local. A pauta de comercialização também incluía sorva, balata, pau-rosa, farinha de mandioca e juta, transportados pelo rio em direção a centros como Manaus e Belém.

Mesmo depois do declínio do primeiro ciclo da borracha, o extrativismo continuou presente. Uma dissertação da Universidade Federal do Amazonas sobre as comunidades de Mocambo e Democracia, em Manicoré, mostra como a coleta e a comercialização da castanha permanecem ligadas à organização social, ao trabalho familiar e ao modo de vida das comunidades tradicionais.

Território, rios e memória

Ao longo do século 20, Manicoré também passou por transformações territoriais. Em 1955, parte de suas terras foi desmembrada para a criação do município de Novo Aripuanã. Apesar das mudanças, Manicoré continuou figurando como um dos principais centros urbanos do médio rio Madeira.

O perfil municipal elaborado pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas registra a presença dos povos Mura, Pirahã, Tenharim, Munduruku e Torá no território. O documento também destaca a importância dos rios Madeira, Manicoré, Marmelos, Matuará e Atininga para o deslocamento e para a produção.

Hoje, a história de Manicoré permanece ligada à floresta e às águas. A agricultura familiar, a produção de farinha, banana e melancia, a pesca e a coleta de castanha, açaí e borracha preservam atividades desenvolvidas ao longo de diferentes gerações.

Mais do que uma sucessão de leis e datas, a formação de Manicoré reúne experiências indígenas, ribeirinhas, extrativistas e urbanas. É uma trajetória marcada pela resistência de seus povos, pelo trabalho nas margens dos rios e pela posição estratégica que transformou a cidade em referência histórica na calha do Madeira.

Sobre a data da instalação do município

Uma publicação da Câmara Municipal informa que a Lei Provincial nº 362 seria de 4 de julho de 1877. Entretanto, os registros históricos do IBGE e da Prefeitura de Manicoré apresentam a data de 4 de junho de 1877, adotada nesta matéria. As fontes institucionais concordam que a instalação do município ocorreu em 15 de maio de 1878.

 

Fontes:

IBGE — História e formação administrativa de Manicoré

IBGE — Monografia histórica e econômica de Manicoré, publicada em 1967 

Prefeitura de Manicoré — História do município 

Prefeitura de Manicoré — Informações sobre o município

Câmara Municipal de Manicoré — 145 anos de emancipação política 

Ufam — Caminhos da Guerra: os índios Parintintin e as frentes de expansão seringalista no rio Madeira

Ufam — Os Mura em movimento: mobilidade e resistência nas águas do Madeira

Ufam — Entre barracões, varadouros e tapiris: os seringueiros e as relações de poder nos seringais do Rio Madeira

Ufam — Sistemas sociais de produção da castanha da Amazônia em Manicoré 

Idam — Perfil municipal de Manicoré

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